24 de setembro de 2009
Vermelho Escarlate
por: Alice Fromer
Um dia desses, levantei bem cedo. Na verdade, nem era assim tão cedo, mas quando se trata de férias (ainda por cima sábado), antes das dez já é considerado cedo. Eis que um clarão invade meu quarto e acordo de supetão; minha mãe abrindo a janela, me chamando para acompanha-la numa ida à feira. Não é difícil imaginar minha reação : “Poxa, mãe... Eu tô de férias!” Mas para não fazer o papel de típica adolescente chata, tomei coragem e pus-me de pé, espantando, de uma vez por todas, a preguiça.
Dali um quarto de hora, lá ía eu, naquele passinho lento de recém acordada, a caminho da feira. Aqui onde eu moro é perto de tudo, tanto é que nem temos carro, o que significa que teríamos que trazer as comprar nas mãos! Não, melhor nem pensar; tentei abstrair e pensar apenas que o dia estava lindo e o sol brilhava forte. O trajeto, quase sem diálogos, pois eu estava mais dormindo do que acordada, eu ainda não era eu mesma, mas sim a Alice no País das Maravilhas em pleno mundo dos sonhos...
Já mais acordada avistei a feira ao longe e pouco tempo depois, adentrei nela. Misturei-me à multidão, que nada se assemelha à multidão da feira da Vila Madalena. Logo de cara, a barraca das flores. Fiquei ali examinando flor a flor, até que a vendedora veio puxar assunto comigo. Uma moça bastante simpática, tagarela como só ela, mas ao menos me distraí e sacudi o sono completamente.
Mais adiante, as frutas e verduras. Era mesmo de chamar a atenção todas aquelas cores vivas e contrastantes e tamanhos tão maiores do que estava acostumada. Senti-me atraída de tal maneira, que seria quase um pecado não ir até lá. As cores estavam me chamando, eu tinha que ir, caso contrário, não dormiria direito aquela noite, tamanho seria o meu arrependimento. De perto eram ainda mais coloridas; tenho certeza de que, ao ver aquelas cores todas, a criança que não gostasse de frutas, passaria a gostar desde aquele momento. Fui descobrindo cada vez mais produtos interessantes e novos para mim. Modéstia a parte, sou boa conhecedora de frutas e vegetais, mas não me lembro de ter antes visto algo tão exuberante em termos de coloração. Acho que, nesse caso, posso dizer que os pimentões eram os mais elegantes da feira, um ao lado do outro formando um degradê que ia do amarelo claro ao vermelho escarlate. Decerto foram os que mais hipnotizaram meus olhos. Do outro lado, os verdes, quase do tamanho de um melão.
As maçãs não ficaram atrás. Seu tom de vermelho ultrapassava o escarlate do pimentão, em compensação, sua casca parecia ter sido lustrada com lustra-móveis! Desde que as vi até a hora em que me despedi, a tentação de provar não me deixou em paz um segundo, mas me contive. Eram idênticas a maçã da Branca de Neve; grandes, brilhantes, muito apetitosas e, acima de tudo e qualquer coisa, impressionantemente vermelhas. Um vermelho jamais visto por mim antes. Impossível esquecer aquele escarlate tão vivo e que prende o olhar. Só espero não cair dura logo na primeira mordida!
As peras, nem eram grande coisa, ninguém dava por elas, coitadas... Pequeninas e submissas ao restante das frutas, ficavam escondidas atrás dos morangos. Assim que me aproximei e pus meus olhos sobre elas, uma senhora chega ao meu lado (a vendedora) e com brilho no olhar conta que suas peras são especiais. Sim, porque só dão uma vez ao ano em Colares, uma freguesia no concelho de Sintra, na serra. Contou que foram colhidas em seu próprio quintal e garantiu que eram as mais saborosas que conhecia. De fato; as melhores que já comi.
Conversa vai, conversa vem, chegara a hora de eu ir embora. Dei uma derradeira vista d’olhos nos pimentões coloridos, nas maçãs da Branca de Neve e nas peras de Colares e, devagar como cheguei, caminhei para casa. Só lamentei não ter podido tocar em nenhum daqueles produtos tão distintos; até poderia tentar fazê-lo, se estivesse disposta a levar “A Bronca da minha vida”!